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Quanto de você é verdade — e quanto é só o personagem que a dor criou?

Publicada em: 13/12/2025 18:16 -

Eu nasci no norte do Paraná.

Primogênita.

Primeiro respiro de uma família simples, sólida, moldada no amor — e também no rigor.

Depois de mim, uma irmã e depois dela, o meu irmão.

Éramos três vidas compartilhando o mesmo ninho.

 

E o mesmo ninho que me abrigou me sufocou, eu sabia que ele era pequeno de mais para mim.

Não que eu fosse grande, mas meus sonhos eram.

 

Havia sonhos reprimidos, vozes silenciadas, feridas encobertas.

E a minha saída de casa, aos 14 anos, não foi apenas um passo rumo ao mundo.

Foi fuga.

Foi sobrevivência.

Foi o instante em que eu deixei de ser menina — não porque a vida me permitiu crescer, mas porque me obrigou a enfrentar.

 

Longe dos braços do meu pai.

Longe do colo da minha mãe.

Longe dos meus irmãos.

Eu aprendi a criar uma couraça.

Endureci por fora para não quebrar por dentro.

Era frágil no corpo, mas precisava parecer forte na alma.

 

Foi assim que eu me masculinizei.

Vestida de armaduras invisíveis, aprendi a intimidar o perigo antes que ele me tocasse outra vez.

E nessa defesa silenciosa, escolhi a segurança como profissão.

Acreditava que era amor pela carreira, não posso dizer que não amo, mas hoje sei exatamente o que me fez escolhê-la.

 

Casei.

Gerei filhas — todas mulheres.

E por um tempo achei que tinha vencido.

Trabalho, família, rotina, tudo no lugar.

Até que o câncer bateu na minha porta, não como sentença, mas como espelho.

 

O câncer arrancou meus cabelos, meus cílios, minha sobrancelha.

E pela primeira vez, o que doía não era o tumor — era o feminino que eu nunca soube como lidar.

Sem cabelos, sem marcas, sem adereços… quem eu era?

 

Foi então que Deus enviou a Márcia Guimarães.

Não com respostas prontas, mas com perguntas que me desnudaram por dentro:

“Faz sentido para você?”

 

Na época, quase nada fazia.

Mas cada silêncio, cada dor, cada lágrima, preparava terreno para a verdade.

 

Quando retirei as mamas, meu corpo gritou.

Ali, na ausência, eu encontrei a presença.

A reconstrução não foi apenas física, foi espiritual.

Era como se eu estivesse sendo moldada novamente pelas mãos do Oleiro.

 

E quando o cabelo começou a nascer, pequeno, tímido, quase frágil, eu entendi:

O feminino não mora apenas no corpo.

Ele também mora na alma.

 

Depois veio o pulmão — o sopro de vida ameaçado.

E o útero — o ventre, a raiz, a morada do ser mãe, do ser filha, do existir.

Cada câncer não destruiu algo em mim:

desvelou.

 

Hoje, eu sei: não fui quebrada.

Fui lapidada.

 

Eu não perdi algo — eu encontrei.

Encontrei a mulher que eu era antes do medo.

A mulher que eu sempre fui e não sabia.

A mulher que não precisa escolher entre ser forte e feminina.

Entre trabalhar fora e amar o seu lar.

Entre cuidar do mundo e cuidar dos seus.

 

Hoje eu reverbero.

Eu renasço.

Eu existo, inteira.

 

Eu sou mulher.

Não apenas mulher.

Sou uma nova mulher.

 

Não empoderada pelos gritos do mundo,

mas fortalecida pela voz de Deus.

 

Eu aprendi que o propósito não me tirou nada.

Ele me devolveu tudo.

 

E hoje, eu posso dizer:

A dor não me arrancou da minha história.

Ela me devolveu a mim mesma.

 

 

 

Dani Paulini

Paranaense de nascimento e catarinense de coração, tenho 37 anos e há 19 chamo a encantadora Joinville de lar.

Filha amada de Deus, esposa do Nataniel e mãe das meninas mais incríveis do mundo parceiras fiéis em cada etapa desta jornada, inclusive na construção deste livro. Um agradecimento especial à minha primogênita, que se dedicou com tanto carinho à criação da capa.

Carrego em minha história a marca da superação. Sobrevivente de três cânceres, transformei a dor em propósito. Hoje, como CEO do projeto Tudo Passa, encontro no servir ao próximo uma parte essencial do meu próprio processo de cura.

Amo o simples da vida: uma casa no mato, o aroma de um bom café e o silêncio da natureza, onde sinto Deus em cada detalhe e renovo minha fé diariamente.

 

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